"-Quando eu viro borboleta fico fininha, fininha, trespassada de luz. Na leveza do meu ser vejo o mundo lá de cima, sinto a brisa deliciosa da primavera roçar as extremidades das minhas asas."
Conheço todas as flores da casa pelo cheiro. Ao nascer do dia, as antenas me levam até o perfume estonteante dos crisântemos; com o sol a pino, sou atraída pelo frescor das folhas de laranjeira, os delicados aromas dos miosótis me seduzem ao cair da tarde. Vagabunda dos ares, adoro oferecer-me ao sol, que, em troca, vai mudando minhas tonalidades de acordo com sua posição, do amarelo-ouro ao alaranjado, do azul claro ao marinho, o prata me pincelando onde antes era branco, ao som das músicas do universo que as pessoas não conhecem, mas as borboletas ouvem, sim. Quando viro borboleta sou solta, sou leve, sou livre, sopro de vida no planeta.
Muitas pessoas acham as borboletas superficiais, inconstantes, espécies de dondocas do ar. Nada mais falso. Nós, borboletas, existimos desde tempos imemoriais, nascemos no instante mesmo da criação do universo. E, antes de ser borboleta, fomos lagarta. Como lagarta conheci os sofrimentos dos mundos subterrâneos, compartilhei os lancinantes gritos reprimidos dos condenados para sempre à escuridão, ouvi e emiti o murmúrio surdo, ressentido, das entranhas da terra. Arrastei-me aos pés dos outros, comi pó, me alimentei de beiradas de folhas, virei alimento de pássaros. Apesar dos meus esforços para disfarçar-me, como lagarta fui pisoteada, humilhada e morta, a pau, a pedra, a inseticida.
Vivi também a imobilidade e o silêncio absoluto da crisálida. Pendurada em algum canto escuro de uma parede, ou colada a um tronco onde não podiam me distinguir, grávida da beleza vivenciei a doação extrema que é morrer, para dar vida a outro ser. Antes de me extinguir como crisálida, porém, durante aquele período de completo isolamento, aprendizado da solidão, tornei-me totalmente translúcida. Limpa das maldades do mundo, pude renascer borboleta, num simples inflar de asas.
Nós, borboletas, somos seres depurados. Nos quarenta breves dias de minha vida recolhi e experimentei todos os tumultos, traições, invejas e culpas espalhados pelos ares e, ao fazer isso, ajudei a purificar o planeta. Respondi aos imensos desafios da minha curta existência modificando-me por inteiro. Por duas vezes transmutei-me em outro alguém, completamente diferente do anterior. Nós, borboletas, somos essência, sumo purificado dos séculos, ar nascido do barro, sofrimento expurgado: delicadeza. Os antigos gregos, que tudo sabiam, descobriram também meu verdadeiro nome: Psyché, a alma, aquela que, liberta do corpo, borboleteia pelos céus descaradamente bela, entre flores e deuses.
Quando eu era bem pequena, me sentia borboleta o tempo inteiro, o vento tocava as pontinhas das minhas antenas, que tremelicavam quando eu mexia a cabeça . Se alguém entrava na sala e me surpreendia toda colorida batendo as asas, cheirando flores, respirando pelos buraquinhos invisíveis do meu corpo ou brincando com as mariposas enquanto vestia bonecas e afagava bichos de pelúcia, este alguém invariavelmente abanava a cabeça, sorrindo: “Criança pequena tem cada uma!” Resultado: eu continuava borboleta, e elas, gente.
Com o tempo, percebi que os adultos estranhavam cada vez mais meu comportamento. Olhavam-me sérias, ar preocupado: “O que tem essa menina, que não larga das flores? E essa mania agora de dizer que já foi largarta, história mais esquisita!” Não tardaram as recriminações, as ordens, os olhares de reprovação, os tapas. Surpresa, sofrida, compreendi enfim que eu não era apenas borboleta, era borboleta e menina. Dupla identidade difícil de gerir, pois os dois mundos, o das borboletas e o dos humanos, não se tocam, jamais se comunicam: opõem-se. Junto às minhas amigas, à bivó e à Pingá, minha querida cachorrinha, nas horas gostosas do banho, de sonhar acordada, chupar sorvete de manga, receber e dar carinho, assistir a filme de terror, andar descalça esparramando os dedos dos pés, nessas horas eu me transformo na mais linda borboleta cor de anil do mundo, salpicada de pintas e brilhantes estrelas, dona de dois falsos olhos que enlouquecem qualquer ser alado. No restante do tempo, sou gente mesmo.
Sinto que meu tempo de borboleta está terminando. Minhas asas tornam-se cinzentas e nem sempre me obedecem. Meus vôos são agora tortos, desajeitados. Não consigo mais fazer meu corpo respirar inteiro. Definitivamente, perdi aquela capacidade de me soltar pelo mundo em busca do sol, de migrar com as amigas para longe do frio, voar rumo à luz, ao calor, às cores tropicais, àquele lugar mágico onde terra, ar e mar se encontram, e de onde se antevê o paraíso. Aflita, tento economizar ao máximo eu-borboleta, mas ela se esvai. Sei, sinto que muito em breve não mais existirá. Por quê? Estou deixando para sempre a infância.
E todo mundo sabe: adulto não voa.
Conheço todas as flores da casa pelo cheiro. Ao nascer do dia, as antenas me levam até o perfume estonteante dos crisântemos; com o sol a pino, sou atraída pelo frescor das folhas de laranjeira, os delicados aromas dos miosótis me seduzem ao cair da tarde. Vagabunda dos ares, adoro oferecer-me ao sol, que, em troca, vai mudando minhas tonalidades de acordo com sua posição, do amarelo-ouro ao alaranjado, do azul claro ao marinho, o prata me pincelando onde antes era branco, ao som das músicas do universo que as pessoas não conhecem, mas as borboletas ouvem, sim. Quando viro borboleta sou solta, sou leve, sou livre, sopro de vida no planeta.
Muitas pessoas acham as borboletas superficiais, inconstantes, espécies de dondocas do ar. Nada mais falso. Nós, borboletas, existimos desde tempos imemoriais, nascemos no instante mesmo da criação do universo. E, antes de ser borboleta, fomos lagarta. Como lagarta conheci os sofrimentos dos mundos subterrâneos, compartilhei os lancinantes gritos reprimidos dos condenados para sempre à escuridão, ouvi e emiti o murmúrio surdo, ressentido, das entranhas da terra. Arrastei-me aos pés dos outros, comi pó, me alimentei de beiradas de folhas, virei alimento de pássaros. Apesar dos meus esforços para disfarçar-me, como lagarta fui pisoteada, humilhada e morta, a pau, a pedra, a inseticida.
Vivi também a imobilidade e o silêncio absoluto da crisálida. Pendurada em algum canto escuro de uma parede, ou colada a um tronco onde não podiam me distinguir, grávida da beleza vivenciei a doação extrema que é morrer, para dar vida a outro ser. Antes de me extinguir como crisálida, porém, durante aquele período de completo isolamento, aprendizado da solidão, tornei-me totalmente translúcida. Limpa das maldades do mundo, pude renascer borboleta, num simples inflar de asas.
Nós, borboletas, somos seres depurados. Nos quarenta breves dias de minha vida recolhi e experimentei todos os tumultos, traições, invejas e culpas espalhados pelos ares e, ao fazer isso, ajudei a purificar o planeta. Respondi aos imensos desafios da minha curta existência modificando-me por inteiro. Por duas vezes transmutei-me em outro alguém, completamente diferente do anterior. Nós, borboletas, somos essência, sumo purificado dos séculos, ar nascido do barro, sofrimento expurgado: delicadeza. Os antigos gregos, que tudo sabiam, descobriram também meu verdadeiro nome: Psyché, a alma, aquela que, liberta do corpo, borboleteia pelos céus descaradamente bela, entre flores e deuses.
Quando eu era bem pequena, me sentia borboleta o tempo inteiro, o vento tocava as pontinhas das minhas antenas, que tremelicavam quando eu mexia a cabeça . Se alguém entrava na sala e me surpreendia toda colorida batendo as asas, cheirando flores, respirando pelos buraquinhos invisíveis do meu corpo ou brincando com as mariposas enquanto vestia bonecas e afagava bichos de pelúcia, este alguém invariavelmente abanava a cabeça, sorrindo: “Criança pequena tem cada uma!” Resultado: eu continuava borboleta, e elas, gente.
Com o tempo, percebi que os adultos estranhavam cada vez mais meu comportamento. Olhavam-me sérias, ar preocupado: “O que tem essa menina, que não larga das flores? E essa mania agora de dizer que já foi largarta, história mais esquisita!” Não tardaram as recriminações, as ordens, os olhares de reprovação, os tapas. Surpresa, sofrida, compreendi enfim que eu não era apenas borboleta, era borboleta e menina. Dupla identidade difícil de gerir, pois os dois mundos, o das borboletas e o dos humanos, não se tocam, jamais se comunicam: opõem-se. Junto às minhas amigas, à bivó e à Pingá, minha querida cachorrinha, nas horas gostosas do banho, de sonhar acordada, chupar sorvete de manga, receber e dar carinho, assistir a filme de terror, andar descalça esparramando os dedos dos pés, nessas horas eu me transformo na mais linda borboleta cor de anil do mundo, salpicada de pintas e brilhantes estrelas, dona de dois falsos olhos que enlouquecem qualquer ser alado. No restante do tempo, sou gente mesmo.
Sinto que meu tempo de borboleta está terminando. Minhas asas tornam-se cinzentas e nem sempre me obedecem. Meus vôos são agora tortos, desajeitados. Não consigo mais fazer meu corpo respirar inteiro. Definitivamente, perdi aquela capacidade de me soltar pelo mundo em busca do sol, de migrar com as amigas para longe do frio, voar rumo à luz, ao calor, às cores tropicais, àquele lugar mágico onde terra, ar e mar se encontram, e de onde se antevê o paraíso. Aflita, tento economizar ao máximo eu-borboleta, mas ela se esvai. Sei, sinto que muito em breve não mais existirá. Por quê? Estou deixando para sempre a infância.
E todo mundo sabe: adulto não voa.

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